Sol e Pele
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Cap. 8 - Protecção contra a radiação solar


A protecção contra os efeitos nocivos da radiação solar envolve aspectos muito diversos, como a escolha de vestuário adequado, ou a administração de subst âncias por via sistémica. Não vamos ocupar-nos de medidas específicas que têm interesse só em situações particulares, mas sim considerar as normas gerais que devem ser observadas por toda a gente em relação aos perigos que o sol representa.

Em primeiro lugar é importante escolher as horas de exposição, sempre que tal é possível. As horas entre as 11 e as 13 são as mais prejudiciais, sendo de preferir períodos próximos do nascer do sol e do ocaso. O tempo de exposição, naturalmente, é fundamental devendo ser limitado no início e só gradualmente aumentado, de acordo com a toler ância.

A escolha do vestuário deve merecer particular atenção, especialmente no que respeita ao uso de chapéu, que protege as áreas calvas do couro cabeludo, onde a radiação incide com ângulo próximo da vertical, mas também a cara, para o que deve possuir abas ou pala. É necessário que projecte sombra sobre regiões onde a incidência se faz com ângulo maior, como o nariz, as regiões malares e o lábio inferior.

Como veremos no próximo capítulo, a água transmite a radiação até profundidade razoável, pelo que a permanência numa piscina ou no mar não diminui o risco de exposição excessiva. Pelo contrário, pode aumentar o efeito agressivo do sol. É um facto que os banhos repetidos aumentam a pigmentação, tal como é popularmente dito, mas isso deve-se exactamente ao facto dessa prática aumentar a toxicidade da radiação ultravioleta, estimulando um mecanismo de defesa que é a melanogénese.

Na praia, a imobilidade tem o inconveniente de expor algumas áreas a doses maiores de radiação, pelo que se deve optar pelo movimento, passeando ou praticando desporto.
Mas a medida porventura mais importante consiste em proteger a pele com produtos que impedem a penetração da radiação, os chamados filtros solares. Estes são de dois tipos designados, um tanto impropriamente, físicos e químicos. E diz-se impropriamente porque ambos são compostos químicos e ambos actuam, em última análise, por um mecanismo físico.
Os primeiros reflectem e dispersam a radiação incidente, sendo muito eficazes para todos os comprimentos de onda. Os principais são o dióxido de tit ânio, o talco, o óxido de magnésio, o óxido de zinco, o caulino e o ictiol. O facto de terem cor e formarem uma película espessa na superfície da pele, torna-os cosmeticamente muito desagradáveis e mal aceites pelos utilizadores. São úteis para pequenas regiões que necessitam de protecção muito eficaz, como os lábios, ou lesões de lupus eritematoso ou vitíligo.
Os segundos absorvem a radiação, dissipando a respectiva energia sob a forma de calor. Pertencem a vários grupos químicos com diferentes espectros de absorção.

PABA e derivados
O ácido para-aminobenzoico e os seus ésteres são conhecidos há mais de 40 anos como filtros solares. Absorvem eficazmente na faixa dos UVB, impedindo os efeitos nocivos desta radiação, deixando passar os UVA que têm alguma acção estimulante da pigmentação, sem produzirem eritema. Penetram na camada córnea, pelo que têm acção muito duradoura, mesmo após o banho. Utilizam-se em solução alcoólica que provoca, por vezes, uma sensação de ardor na pele. Além disso, as soluções de PABA mancham frequentemente a roupa. Isto não acontece com os ésteres, mas estes são menos activos. Por vezes pode sensibilizar, originando dermites de contacto, e pode também fotossensibilizar, sendo causa de fotodermatoses de contacto.

Cinamatos
Filtros da radiação UVB, não penetram na camada córnea, pelo que são facilmente eliminados pela água e transpiração. A sua eficácia é largamente dependente da aderência do veículo à pele.
O 2-etilhexil-p-metoxicinamato é dos mais populares e absorve entre os 290 e 320 nm, com um máximo de 308 a 310. O 2-etoxietil-p-metoxicinamato absorve entre os 280 e os 320,com um máximo nos 310.
Até ao momento foram descritos apenas alguns casos de fotossensibilização pelos cinamatos.

Benzofenonas
São filtros dos UVB cuja acção se estende também aos UVA. Têm utilização na indústria, incorporadas em tintas, para evitar a alteração da cor induzida pelos ultravioletas. Em geral o seu espectro de acção estende-se dos 270 aos 350 nm mas, em concentrações maiores, da ordem dos 10%, podem alargar a sua eficácia nos UVC. A este respeito podem ser classificadas como filtros de largo espectro.

Salicilatos
Absorvem entre os 290 e os 311 nm mas têm o inconveniente de perder rapidamente a actividade com a luz solar e em contacto com o ar. Em geral necessitam de ser utilizados em concentrações elevadas.
Foram dos primeiros filtros solares disponíveis e ainda são muito usados nos Estados Unidos, mas na Europa perderam popularidade em favor dos cinamatos.

Dibenzoilmetanos
São compostos que absorvem predominantemente na faixa dos UVA, razão porque se tornaram muito populares na Europa, especialmente depois que se começou a considerar a import ância desta radiação nos fenómenos de fotoenvelhecimento. Têm alguma eficácia nos UVB mas actuam sobretudo nos UVA, com um máximo de acção cerca dos 345 nm.
Estão descritos alguns casos de sensibilização e fotossensibilização, mas a toler ância parece ser muito boa.

Outros compostos
Há um conjunto de subst âncias que, por uma razão ou outra, são menos usadas na actualidade. Importa, no entanto, conhece-las porque ainda aparecem, por vezes, nalguns produtos.
Os derivados da c ânfora absorvem entre os 280 e os 320 nm e são estáveis ao sol e em contacto com o ar, mas a sua eficácia é hoje posta em dúvida por certos centros.
Os antranilatos absorvem principalmente os UVA, sobretudo entre os 322 e os 350 nm, com uma absorção máxima nos 340 nm. Têm o inconveniente de manchar frequentemente o vestuário.
Os derivados do benzimidazol são eficazes para os UVB mas são totalmente permeáveis aos UVA, o mesmo acontecendo com os derivados do benzoxazol.
O digaloiltrioleato é um filtro dos UVB, com um máximo nos 300 nm, muito popular nos Estados Unidos em loções e «sticks» para os lábios.
Outros filtros bastante menos conhecidos incluem o dimetoxifenilglioxilato de sódio e a dibenzalazina. A "red veterinary petrolatum" foi bastante usada há anos e constitui um produto relativamente eficaz para os UVB e com alguma acção nos UVA. Tem a vantagem de aderir muito bem à pele, sendo difícil a sua remoção, mesmo com sabão.

A terminar importa referir os produtos que, por conterem pigmentos, são capazes de dar tonalidade escura à pele, os chamados bronzeadores sem sol. É preciso notar que a cor raramente é semelhante à que resulta da melanogénese e, por outro lado, não oferece qualquer protecção contra os efeitos nocivos da radiação, constituindo uma ilusão que pode ter consequências desagradáveis. Dentre eles deve-se salientar a dihidroxiacetona que tem a vantagem de penetrar nas células superiores da epiderme e combinar-se com a queratina da camada córnea, razão porque resiste bastante bem à lavagem e se mantém eficaz durante 5 a 8 dias. Embora a sua utilização na protecção contra o sol não tenha lugar, pode ter interesse para mascarar, por exemplo, lesões de vitíligo ou outras, como a hipocromia lenticular idiopática.

Um bom protector solar deve possuir algumas características que são fundamentais. Em primeiro lugar deve ser resistente à água para manter elevada actividade mesmo depois do banho e após sudação intensa. Esta propriedade depende da natureza dos princípios activos mas, também, da formulação do veículo. Além disso deve ser cosmeticamente bem concebido de modo a que a sua utilização seja bem aceite. Não deve ter acção irritativa local, nem conter subst âncias susceptíveis de criar problemas de sensibilização. Finalmente é indispensável que seja eficaz na protecção contra as radiações nocivas cujos efeitos se pretende neutralizar.
A eficácia dos protectores solares é avaliada através do chamado factor de protecção (FP), expresso por um número que representa a relação entre a dose de radiação necessária para produzir um determinado grau de eritema na pele protegida pelo produto em causa e a dose necessária para produzir o mesmo eritema na pele não protegida. As doses referidas são, habitualmente, as doses eritematosas mínimas.

FP = DEM na área protegida: DEM na área não protegida

É claro que este método só dá informações sobre a actividade do filtro solar em relação à radiação eritemogénica, ou seja, a UVB. Mas recorde-se que esta radiação é responsável pela generalidade dos efeitos nocivos do sol, como o eritema, o envelhecimento, ou a carcinogénese e, por isso, é este indicador o mais importante.
Nos últimos anos, especialmente depois de conhecido o papel patogénico da radiação UVA, tem havido alguma preocupação em determinar também o factor de protecção para os UVA. Há outros métodos para este efeito, dado que esta radiação é muito pouco eritemogénica e seriam necessárias enormes doses de radiação para efectuar a prova nos mesmos moldes. Pode-se aumentar o poder de produzir eritema se usarmos psoralenos, tópicos ou sistémicos, antes de irradiar as pessoas que colaboram no estudo. Neste caso avaliamos a capacidade do produto inibir o eritema que resulta da acção combinada do psoraleno e dos UVA. As menores doses capazes de originar eritema nestas condições chamam-se doses mínimas de fototoxicidade e o FP (UVA) será dado pela seguinte fórmula:

FP = DMF na pele protegida : DMF na pele não protegida

Outro método consiste em determinar a menor dose capaz de provocar pigmentação imediata, com e sem o protector. Como vimos, a pigmentação imediata é provocada sobretudo pelos UVA e os respectivos filtros podem inibi-la.
O inconveniente que têm os métodos referidos é que cada um estuda a capacidade de anular um determinado efeito fotobiológico, com um espectro de acção próprio, e que pode nada ter a ver com o espectro de acção dos efeitos prejudiciais que queremos evitar e que não conhecemos. Basta referir que a determinação do FP (UVA) pelos dois métodos, e para o mesmo produto, pode ter variações de 50 para 10. Isto traduz bem a diferença entre os fenómenos avaliados e a verdade é que não sabemos qual o que tem espectro mais próximo do dos efeitos que se pretendem combater.
Em relação à determinação do FP para os UVB, embora o método geral seja sempre o referido, há vários protocolos que se distinguem em questões de pormenor, como a natureza das fontes de radiação, as doses utilizadas e o modo como se fazem os respectivos aumentos, a determinação das médias das DEM, etc.. Os protocolos mais importantes são o da FDA, dos Estados Unidos, o DIN (Deutsches Institut fuer Normung), da RFA, e o SAA (Standards Association of Australia), da Austrália. Existem ainda modificações várias destes métodos, criadas um pouco por todo o lado, de modo que estamos longe da estandardização que seria desejável.

As linhas gerais são, no entanto, sempre as mesmas. Há um número mínimo de 20 voluntários, sem história de doença fotossensível, que colaboram nos ensaios e cuja pele é irradiada em áreas protegidas pelos produtos em estudo e em área não protegida. Em cada local usam-se doses crescentes de radiação, acima e abaixo da DEM esperada, com aumentos que variam conforme os métodos, mas que são feitos em progressão geométrica. Ás 24 horas os FP são determinados, aplicando a fórmula já referida. O FP final é a média aritmética da totalidade dos FP, não devendo o erro padrão da média exceder determinados valores.
Para avaliação da resistência à água, procede-se de igual modo noutra região, que é imersa em água, ou lavada com água corrente, durante algum tempo, no intervalo entre a aplicação dos protectores e a irradiação. A comparação entre o FP na área não lavada e na área lavada dá-nos a capacidade de resistir à água.
A terminar, é importante referir que a simples determinação do FP in vitro, através das curvas de absorção, método que é por vezes usado, dá valores bastante diversos dos obtidos in vivo, por não ter em conta os factores biológicos dependentes das propriedades da pele e, por isso, não pode ser aceite como meio de avaliar a protecção oferecida por um filtro solar.

A escolha do factor de protecção deve ter em conta o tipo de pele, mas também as condições em que é feita a exposição e a intensidade da radiação solar no local. Por este motivo não se podem estabelecer regras absolutas. Postas estas reservas, dir-se-á que as pessoas com peles do tipo I e II (Quadro VI) devem usar protectores solares com factor de protecção superior a 10, com pele do tipo III, factor igual ou superior a 8 e, do tipo IV, factor superior a 4. É discutível se os tipos V e VI necessitam de protecção como rotina. A usá-la será do mesmo valor que o tipo IV.

 




Sol e Pele
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Bibliografia
Cap. 9 - Considerações finais
Cap. 8 - Protecção contra a radiação solar
Cap. 7 - Estudos dos fotdermatoses
Cap. 6 - Fontes artificiais de radiação
Cap. 5 - Reacções da pele à radiação solar
Cap. 4 - A fotobiologia e reacções fotoquímicas
Cap. 3 - Propriedades ópticas da pele
Cap. 2 - Radiação solar
Cap. 1 - Radiação electromagnética